O outro lado da barragem de José Boiteux

 

Por João Paulo Taumaturgo, com fotos de Sidnei Ya-ói

 

Muito se falou nos últimos dias sobre a barragem de José Boiteux. Os motivos são óbvios, afinal a estrutura de contenção de águas é fundamental para uma diminuição nos riscos de alagamentos no Médio Vale, principalmente na cidade de Blumenau.

Atentos a essas questões, entrei em contato com uma moradora das terras indígenas para entender melhor a situação e também quais os principais problemas enfrentados pelos indígenas que lá habitam. Confira abaixo a entrevista feita com a descendente indígena da tribo Xokleng, Jéssica Priprá.

 

 

OBumenauense: Quantas pessoas vivem nas terras além da barragem?

Jéssica Priprá: Aproximadamente 3.000 indígenas, sendo que desses cerca de 2.000 estão nas terras acima da barragem.

OBumenauense: É comum a ida até a cidade no dia a dia?

Jéssica Priprá: Sim, muitos acordam de madrugada para se deslocar, pois trabalham em José Boiteux, Ibirama, Presidente Getúlio e toda a região.

OBumenauense: Quais os principais serviços que a população busca em José Boiteux?

Jéssica Priprá: É muito comum irmos até a cidade para trabalhar e usar os serviços públicos.

OBumenauense: O fechamento da barragem implica na inundação de residências?

Jéssica Priprá: Sim, algumas residências são alagáveis. Inclusive muitas famílias já foram transferidas durante a noite de hoje (05/06/2017) por precaução.

 

 

OBumenauense: Apesar do fechamento da barragem implicar na obstrução do principal meio de ligação com o município, existe outro caminho?

Jéssica Priprá: Existe sim outro caminho, porém a estrada é muito ruim, e inclusive também fica alagada em alguns pontos. O governo até comentou iriam reformar uma estrada de 24 quilômetros para acessar a cidade, mas nós já esperamos isso há muito tempo e nada.

OBumenauense: Existe alguém além-barragens que pode precisar de auxílio médico emergencial? (Grávidas, idosos, etc)

Jéssica Priprá: Sim, temos muitas crianças, idosos e também gestantes, ainda mais com essa chuva e frio são necessário os atendimentos. O triste é que nunca ninguém vem querer saber como estamos. Somente na época de enchente quando a barragem precisa ser fechada é que alguém aparece. É difícil para nós aqui em cima essa situação, fecharam as comportas e a chuva não para de cair. Não sabemos como vamos ficar, pois não temos informações.

 

 

OBumenauense: Quais as principais dificuldades?

Jéssica Priprá: Nossos antepassados se instalaram nas terras a beira do rio. Isso fez com que toda a nossa comunidade construísse no entorno, logo, muitas das obras, como escolas, por exemplo, acabaram sendo feitas em lugares alagáveis. Nossas crianças precisam ser educadas em escolas que estão antes da barragem, sendo assim, durante a enchente, enquanto a barragem está fechada, as crianças não tem como ir à aula. Também os médicos e as pessoas que nos atendem aqui dentro ficam sem acesso para manter os serviços.

OBumenauense: O governo em algum momento comentou sobre o helicóptero Arcanjo que poderia realizar atendimentos na aldeia?

Jéssica Priprá:Em nenhum momento foi falado sobre a possibilidade de atendimento de helicóptero em casos de emergência.

OBumenauense: Quais as promessas do governo que não foram cumpridas?

Jéssica Priprá: Esse é um problema que vem se arrastando há décadas. Quando acabam as chuvas, parece que esquecem da barragem e nossa situação. O principal é a demarcação das nossas terras que ficaram inutilizadas com a barragem. Eles construíram algumas casas em contrapartida, para as pessoas que tiveram suas casas comprometidas com o alagamento por causa da barragem. Mas elas estão inabitáveis, sem rede de esgoto e tubulação de água.

Por isso acabam ficando abandonadas. E ainda assim foram construídas em áreas que não são ideiais, de acordo com a Defesa Civil. Além disso, existe a promessa de uma ponte que ligaria a aldeia à barragem, mas isso nunca foi cumprido e hoje nem se fala mais nisso.

 

Os indígenas fizeram uma caminhada até a frente da prefeitura e José Boiteux para cobrar alguns direitos e promessas que não foram cumpridas

 

OBumenauense: Se essas promessas fossem cumpridas, garantiriam o acesso de vocês à cidade mesmo com a barragem fechada?

Jéssica Priprá: Nas últimas conversas, foi abordada a manutenção da estrada de acesso com a barragem fechada. Se essa promessa for cumprida, sim, melhoraria e muito nossa situação. O Governo disse que iria conversar com as Prefeituras da região para que fizessem as melhorias necessárias.

 

 

OBumenauense: Como vocês se sentem com toda essa situação?

Jéssica Priprá: É muito triste tudo isso, porque muito do que mantemos aqui, é através de doações de pessoas que se comovem com nossa luta e causa. Muitos acreditam que ganhamos tudo do governo e que nós sentimos certo preconceito de pessoas de outras cidades para com nosso povo, mas isso é mentira. Temos que lutar muito para nos manter e preservar nossas tradições.

Eu trabalho e garanto meu dinheiro para sustentar minha família, assim como todas as pessoas. Infelizmente a mídia também acaba nos colocando como culpados nessa situação da barragem, quando na verdade o verdadeiro culpado são os políticos e o governo, que como sempre, prometem e arrastam com a barriga. Nossa maior preocupação é que depois dessas enchentes todos irão esquecer-se disso tudo, e nós continuaremos lutando aqui e exigindo do governo que cumpram as promessas.

Sei que muitas das pessoas do médio vale ficam mais tranquilas sabendo do fechamento da barragem de José Boiteux, mas e o nosso povo aqui em cima? Muitas famílias que mal tem o que comer, e ainda vão ter que conviver com essa situação de ficar sem acesso à cidade e talvez até ter sua casa alagada. Somos tachados como os malfeitores da história, quando na verdade todos nós, brancos e índios, somos vítimas de um governo ineficiente e descomprometido.

 

 

Essas imagens mostram um movimento que os indígenas fizeram contra o preconceito que vem sofrendo. 

 

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João Paulo Taumaturgo

Sou formado em Administração com ênfase em Processos Gerenciais. Amo Blumenau, Amo Fotografia e Amo Jornalismo. Busco compartilhar boas ideias e práticas que acontecem em nossa cidade, para que elas sejam copiadas e difundidas. Sempre buscando um mundo melhor para se viver.

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